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*Por Tássia Biazon

 

Extinção de espécies, problemas de saúde, catástrofes ambientais, mudanças climáticas. Essas são algumas das reportagens científicas cada vez mais frequentes, devido ao aumento de impactos ambientais em diversos ecossistemas. Em novembro de 2017, as metas para combater o problema foram amplamente discutidas pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), por meio da 23ª Conferência das Partes (COP), a COP23.

 

Em prol do desenvolvimento sustentável, a UNFCCC foi elaborada no Rio de Janeiro, em 1992, durante a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento – a Rio 92. A Convenção entrou em vigor em 1994, e desde 1995, os seus países signatários – Partes da Convenção – passaram a se reunir anualmente para discutir e tomar decisões a fim de proteger o sistema climático. A UNFCCC tem como principal objetivo “estabilizar as concentrações de Gases de Efeito Estufa (GEE) na atmosfera em um nível que impeça uma interferência antrópica perigosa no sistema climático global”.

 

A 23ª edição da COP – realizada de 6 a 17 de novembro, em Bonn, na Alemanha –, contou com a representação de cerca de 200 países – entre eles o Brasil –, reunindo milhares de pessoas, como políticos, ambientalistas, cientistas, empresários, estudantes etc. A Conferência, que principalmente debateu sobre a necessidade da diminuição da emissão de dióxido de carbono ou gás carbônico (CO2), aconteceu no mesmo período em que cientistas afirmaram que a emissão de CO2 aumentará em 2017 – segundo previsão de estudos publicados pela Nature Climate Change e Environmental Research Letters –, conforme aponta uma reportagem publicada em novembro pelo jornal El País.

 

Corroborando com essas pesquisas, em outubro de 2017, o jornal Folha de S.Paulo publicou a reportagem denominada Emissão de gases estufa do Brasil tem maior crescimento em 13 anos, que enfatiza o aumento da emissão de GEE no Brasil, principalmente devido ao desmatamento, com a liberação de 2,3 bilhões de toneladas de CO2 em 2016. O CO2, principal causador do aquecimento global, é emitido principalmente pelo uso de combustíveis fósseis, como o petróleo. A China é o maior emissor mundial. Em segundo lugar estão os Estados Unidos. Apesar de tal posição, em 1º de junho de 2017, o presidente americano, Donald Trump, anunciou a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris.

 

Instituído em 2015, na capital francesa, durante a 21ª Conferência das Partes (COP21), o Acordo de Paris objetiva principalmente “manter o aumento da temperatura média global bem abaixo dos 2°C acima dos níveis pré-industriais e buscar esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, reconhecendo que isso reduziria significativamente os riscos e impactos das mudanças climáticas”. Os cientistas são categóricos: se o Acordo não for alcançado, as alterações físicas, químicas e biológicas serão muito mais drásticas e durarão pelo milênio.

 

Aumento da produção de GEE

Um dos grandes desafios do atual século é a atenuação e adaptação dos efeitos das mudanças climáticas globais. Ao passo que o progresso econômico, aliado ao progresso científico, tem aumentado o bem-estar do ser humano, cada vez mais esse bem-estar produz GEE, seja para a geração de energia, o transporte de passageiros e mercadorias, a produção de alimentos, entre outras atividades. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), a influência humana no sistema climático é clara e as recentes emissões antropogênicas de GEE são as mais altas da história. Além disso, o IPCC projeta que a temperatura da superfície do planeta continuará a aumentar ao longo do século XXI.

 

Margareth Copertino, professora do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), foi convidada pela Intergovernamental Oceanographic Comission (IOC), da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), para participar da COP23, em função de sua participação no programa internacional The Blue Carbon Initiative. “Foi a minha primeira participação em uma COP e uma das experiências mais ricas da minha vida, tanto para minha experiência profissional quanto pessoal – reorientando minha visão de cientista, professora e cidadã do mundo”, expressa.

 

Segundo a professora, não temos mais como impedir as mudanças climáticas. “Se parássemos de emitir GEE agora, os efeitos do aquecimento global permaneceriam pelo século”, reflete. Para que os efeitos não se agravem, é necessário reduzir imediatamente as emissões de gases de efeito estufa, efetuar a transição o quanto antes para uma economia de baixo carbono e aplicar tecnologias de mitigação das emissões, que aumentem a absorção de CO2 pela biosfera, tanto pelos ecossistemas terrestres quanto pelos oceanos.

 

A redução das emissões de GEE envolve mudanças drásticas na base energética e na economia dos principais países emissores do mundo (China, EUA, Índia, Rússia, Japão, Alemanha etc.), bem como a redução imediata do desmatamento das florestas tropicais, situadas principalmente nos países em desenvolvimento e emergentes (Brasil, Indonésia, China etc.). “Aproximadamente dois terços das emissões históricas de CO2 e metano no mundo são atribuídos a apenas 90 grandes companhias, como Chevron, Exxon Mobil, BP e Shell”, diz Margareth, enfatizando que identificar os maiores produtores de CO2 pode fornecer uma base mais eficiente para exercer pressões pela sociedade e pelas legislações.  

 

A fim de impedir um possível cenário catastrófico, durante a COP23 cada país apresentou metas a serem cumpridas – embora cientistas alertem que as emissões dos GEE devem ser reduzidas muito mais rápido do que está previsto nas atuais Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC, na sigla em inglês) – documentos que contém os compromissos e metas que cada país deve implementar para a redução das emissões. O Brasil estipulou reduzir 37% das emissões de GEE até 2025, com indicativo de cortar 43% até 2030. Mas o país está muito distante de atingir essas metas, conforme aponta uma reportagem publicada em dezembro de 2017 pela Folha de S.Paulo.

 

Durante a COP23, Margareth compôs um painel com mais oito cientistas de diferentes países, denominado Ocean Action Day. O painel apresentou sessões científicas, tecnológicas, políticas e econômicas, relacionando as mudanças climáticas com os oceanos. “Foram abordados temas como as bases científicas das mudanças climáticas, as vulnerabilidades dos ecossistemas e populações costeiras, ações de manejo integrado baseado nos ecossistemas, a resiliência da pesca e aquicultura, o sequestro de carbono pelos oceanos, os riscos costeiros, as possibilidades de energias renováveis e os mecanismos existentes de financiamento”, esclarece.

 

 

 

Ações para a diminuição de GEE

A mitigação das emissões envolve principalmente a conservação e recuperação dos ecossistemas com alta capacidade de sequestro de carbono (tanto terrestres como costeiros e marinhos). “A conservação do green carbon (carbono sequestrado pelos ecossistemas terrestres) e do blue carbon (carbono sequestrado pelos ecossistemas costeiros e oceanos), tem o potencial para contribuir com a redução de até 30% das emissões até 2050. Outras soluções envolvem a aplicação de geoengenharias – tanto para mitigar as emissões em grande escala quanto para a redução da temperatura do planeta”, relata Margareth.

 

“Durante os inúmeros encontros em muitos setores da sociedade, percebi que não faltam exemplos de soluções, inovações, ideias, ações comunitárias locais, empreendimentos e organizações sustentáveis. Para todos os setores, há um número incontável de recomendações científicas, tecnológicas, econômicas e sociais. O que estão faltando, ainda, são implementações em todos os níveis (global, nacional, regional, municipal, organizacional, empresarial etc.). Implementações, que dependem também – mas não somente – de negociações entre líderes e setores. Estas sim andam mais devagar do que todo o resto”, diz Margareth.

 

Segundo a professora, para reduzir a temperatura em um ou dois graus – conforme meta estabelecida pelo Acordo de Paris –, a pesquisa de soluções de geoengenharia está focada principalmente do manejo da radiação solar, que propõe soluções tecnológicas em escalas planetárias (ex. grandes refletores colocados no espaço) ou regionais (ex. pulverização da atmosfera para aumento do albedo). Entretanto, a redução da luz incidente em grande escala possui impactos ainda imprevisíveis para a produção primária (já que afeta a fotossíntese) e ecossistemas, para a saúde pública e para as relações internacionais e governança mundial dessas tecnologias. Desta maneira, há grupos da sociedade civil e cientistas, principalmente na Europa e EUA, bastante engajados em advogar contra as geoengenharias.

 

E qual seria o potencial do Brasil para a diminuição das mudanças climáticas do mundo? Para Margareth, o maior potencial está no patrimônio natural, na agricultura e na base energética. “Devido ao histórico de desmatamento e de degradação ambiental com mudanças no uso do solo, o Brasil está entre os dez maiores emissores de GEE do planeta. Portanto, possui um papel crucial na mitigação das mudanças climáticas e controle do clima da Terra”.

 

O Brasil possui a segunda maior área de manguezal do mundo (cerca de um milhão de hectares) – a Indonésia ocupa a primeira posição – e uma extensão de pradarias marinhas ainda desconhecida (dezenas a centenas de milhares de hectares). Os manguezais brasileiros estocam quantidades entre 100 e 220 bilhões de toneladas de carbono – por unidade de área, os solos desses manguezais podem estocar de 3 a 4 vezes mais carbono do que os solos da Amazônia. Mas apesar de o Brasil possuir a maior área de manguezais protegida do mundo, eles continuam ameaçados pela ocupação intensa e desenvolvimento acelerado costeiro, eutrofização, alterações nas bacias de drenagem, construção de rodovias, aquicultura intensiva e impactos da pesca predatória. “Se impactados ou destruídos, o carbono estocado nesses ecossistemas é liberado na forma de emissões de CO2, metano e óxido nitroso, semelhante aos efeitos do desmatamento”, explica Margareth.

 

A professora também esclarece que um grande estoque de carbono marinho está na forma de esqueletos de carbonato de cálcio nos recifes de corais brasileiros (Banco de Abrolhos e Costa dos Corais) e nos extensos bancos de rodolitos (conglomerados de macroalgas vermelhas calcárias). “Se impactados pela acidificação e aumento da temperatura, os recifes de corais e banco de rodolitos poderão liberar mais carbono para a água do mar”, diz. Além disso, comenta que práticas ruins de manejo e uso do solo pela agricultura e pecuária intensivas, praticados em grande escala, são responsáveis, ainda, por grandes quantidades de emissões. “Comparada aos maiores emissores do mundo, possuímos uma base energética relativamente limpa, devido ao predomínio histórico de hidrelétricas – que não é isenta de impactos aos ecossistemas –, contudo, as emissões de CO2 por combustíveis fósseis são consideráveis”, acrescenta.

 

Os oceanos estão absorvendo 93% da energia térmica extra causada pelo aquecimento global. O derretimento das calotas polares, associado à expansão térmica (aumento do volume da água devido ao aquecimento dos oceanos), tem causado a elevação do nível médio do mar. Além disso, com o aumento na emissão de CO2 no último século, a absorção desse gás pelos oceanos tornou suas águas 26% mais ácidas. Os efeitos combinados do aquecimento, desoxigenação das águas, acidificação e elevação do nível do mar causam a redução da biodiversidade marinha e do pescado, impactando as populações para além das regiões costeiras, afetando a segurança alimentar e as sociedades.

 

A COP 23 foi um importante momento em que o mundo refletiu sobre o clima versus o futuro, enfatizando que os oceanos devem estar à frente e no centro das pesquisas e ações relacionadas com as mudanças climáticas. “A transição para uma economia de baixo carbono envolve a aplicação de tecnologias de energias limpas e mudanças nas práticas dentro dos diversos setores da sociedade, como indústria, transportes, agricultura e uso doméstico, ou seja, governos, empresas, sociedade civil, todos devem agir para a diminuição dos GEE”, enfatiza Margareth. O uso de carros elétricos; energia eólica, solar, geotermal; arranjo ecológico das indústrias e cadeias produtivas; mudanças nas técnicas e práticas de agricultura e pecuária; mudanças comportamentais da sociedade, como práticas de consumo sustentáveis, são alguns dos exemplos para a diminuição dos GEE.

 

“A humanidade tem o poder de mudar e escolher como será o seu futuro”, diz Margareth. A COP é o órgão supremo decisório no âmbito da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), a partir do qual as decisões tomadas poderão influenciar governos e demais setores, sobre as implicações das mudanças climáticas à humanidade e ao planeta. Segundo a pesquisadora, o evento tem definido rumos dentro da ciência, inovação, tecnologia, economia, comportamento social e história da civilização, entretanto, tem sido menos eficiente do que deveria ou poderia ser. "Enquanto a ciência e a tecnologia avançaram mais rápido do que se esperava nas últimas décadas, rumo à investigação dos impactos e soluções de adaptação e mitigação, as ‘partes’ (países) andaram vagarosas na tomada de decisões, negociações e implementações de políticas e planos de ações voltados para a redução das emissões. Ainda estamos caminhando sob uma economia de alto carbono”, contesta Margareth.

 

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