Por Tássia Biazon

 

“Transformação”. Essa palavra define o que acontece quando um local é intensamente ocupado por populações humanas. As árvores dão lugares aos prédios, o solo ao asfalto, a diversidade à ausência de vida. A disputa entre espaço urbano versus espaço natural sempre é uma difícil equação – que é mais complexa nas regiões litorâneas. A cidade de Florianópolis vem sofrendo uma enorme expansão urbana, tendo hoje uma população de quase 500 mil habitantes (mais de 600 hab/km2), ou seja, 15% maior que aquela registrada no censo de 2010. O município atrai turistas o ano todo, com um litoral exuberante – mas também tem regiões pouco notadas, como a Ponta do Coral.

 

Localizada na região central da capital catarinense, a Ponta do Coral é historicamente motivo de muitos interesses, seja na esfera política, comercial ou ambiental. Já foram propostas para a região desde a ideia de construir um hotel na década de 1980, até a ideia de aterrar a área para a construção de uma área verde. Hoje, a luta é pela construção de um parque, incentivada pelo Projeto do Parque Cultural das 3 Pontas, que inclui a Ponta do Coral, a Ponta do Lessa e a Ponta do Goulart – todas localizadas em ecossistemas costeiros de Florianópolis.

 

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Ponta do Coral, região costeira central de Florianópolis (Foto: Zé Caetano)

 

Os ecossistemas costeiros são espaços livres e públicos, que podem ser acessados para a formação transdisciplinar de professores e alunos e que podem promover o debate político e a participação cidadã nas decisões para o gerenciamento costeiro. Assim, com o objetivo de promover a educação transdisciplinar nas escolas, tendo como vivências os ecossistemas marinhos-costeiro – também denominados de laboratórios livres –, nasceu o Projeto Mundo à Beira Mar.

 

Iniciado em 2009, o Projeto é um trabalho de extensão da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que já contou com a participação de 440 professores, de diferentes áreas e séries. "O projeto aplica a proposta da socioeducação ambiental nas escolas da rede pública de Florianópolis, utilizando-se de tecnologias, como o espaço virtual de aprendizado e a produção artístico-cultural", explica a coordenadora do Projeto e professora da UFSC, Alessandra Larissa Fonseca. "Como estamos em uma ilha, diversas escolas têm os ecossistemas costeiros como ‘quintal’, mas não utilizam este espaço para promover a formação dos alunos e não trabalham os conteúdos programáticos. A nossa proposta é promover isto, sempre com o olhar de inserir os alunos em debates atuais de sua região", acrescenta.

 

Dentro desse Projeto, nasce em 2017 o documentário Mundo à Beira Mar, construído por alunos do segundo ano do ensino médio da Escola de Educação Básica Padre Anchieta (E.E.B. Padre Anchieta) – escola pública localizada próximo à Ponta do Coral. O trabalho foi desenvolvido sob uma visão transdisciplinar, já que envolveu nove disciplinas, que deveriam, em algum momento do conteúdo programático do ano letivo, trabalhar a temática. "Por exemplo, a sociologia trabalhou com os alunos o tema 'movimento social' e usou o movimento da Ponta do Coral como foco. Para isso, eles tiveram dois momentos de conversa com integrantes do Movimento Ponta do Coral 100% Pública", diz a coordenadora.

 

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Alunos da E.E.B. Padre Anchieta que participaram do documentário (Foto: Zé Caetano)

 

A coordenadora também explica que convidou o aluno José Lucas Caetano de Oliveira, o Zé Caetano, do curso de Oceanografia da UFSC, para fazer o seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) com o tema. Então, ele teve a ideia de construir o documentário com a escola: "Como já trabalhava com produção de vídeo, inclusive cursei diversas disciplinas do curso de Cinema na própria UFSC, fiquei muito feliz em poder unir essas duas paixões: o cinema e a oceanografia", expressa Zé Caetano, que dirigiu o documentário.

 

A ideia do diretor era construir um curta-metragem no qual os alunos fossem os construtores, colocando a mão na massa (entrevistar, investigar, filmar e produzir diretamente um audiovisual que envolvesse a escola como um todo, a comunidade ao redor da escola e a Ponta do Coral), a fim de que os alunos obtivessem uma vivência profunda sobre o local e desenvolvessem uma capacidade crítica para participar da gestão costeira da cidade. Um processo bem mais profundo do que desenvolver uma atividade curta e pontual na escola.

 

Com uma equipe multidisciplinar, a produção do documentário contou com uma grande equipe, como alunos, professores, coordenadores, moradores da cidade etc. – além da parceria com os laboratórios da UFSC, o Laboratório de Cinematografia (LABCINE) e o Laboratório de Gravação e Edição de Som (LABSOM). "O trabalho começou em fevereiro e foi finalizado em novembro. Neste período foram promovidas diversas atividades como aulas extracurriculares, workshops de produção de vídeo, saídas de campo, entrevistas etc.", diz Zé Caetano.

 

O documentário, que já pode ser acessado pela internet, foi lançado no dia 28 de novembro no Centro Integrado de Cultura (CIC) e aberto ao debate com os espectadores – ocasião na qual os alunos envolvidos tiveram a oportunidade de relatar a importância do trabalho para suas vidas. "Muitos pensavam em apenas trabalhar após o ensino médio, mas hoje pensam em seguir carreira com o que se identificaram ao longo do Projeto, como jornalista, cineasta e músico", relata a professora Alessandra. Isto é importante, ao considerar a evasão escolar na E.E.B. Padre Anchieta, que atende a comunidade carente de Florianópolis e que fechou turmas em 2016 por falta de alunos.

 

O documentário foi uma aproximação entre o saber acadêmico e o saber escolar para a professora Karla Andrezza Vieira, que leciona história há 17 anos e atua na E.E.B. Padre Anchieta desde 2003. "A atuação dos estudantes, o trabalho de pesquisa, a participação nas saídas de campo, bem como o debate junto ao Movimento Social da Ponta do Coral foram extremamente positivos no processo de construção do material", diz Karla, que também destaca a mobilização por parte da UFSC, que estabeleceu um diálogo sistemático junto ao corpo docente e discente da escola. "Não há dúvidas de que participar da construção do documentário foi extremamente significativo para minha formação docente, política e humana. Compreendo a história local como terreno propício para que estudantes signifiquem os processos históricos, lidem com as temporalidades e percebam que narrativas são construções culturais e políticas".

 

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A professora de história da E.E.B. Padre Anchieta em entrevista para o documentário (Foto: Zé Caetano)

 

Conforme aponta, não é novo o debate sobre o que fazer com a Ponta do Coral – inclusive no curta o foco é sobre os conflitos da região. Na década de 1980, o então governador Jorge Bornhausen decretou a venda do terreno após um incêndio no abrigo de menores. A região acabou sendo comprada por Realdo Guglielmi, que pretendia construir um grande hotel – projeto barrado pela Fundação do Meio Ambiente (Fatma) e por intensas manifestações populares, levando a Ponta do Coral a um processo de abandono. Segundo Karla, as lutas continuam e ainda há muita mobilização e enfrentamento em relação à especulação imobiliária na região. "O documentário Mundo à Beira Mar concretiza a importância deste debate", ressalta.

 

Uma das alunas que fez parte do trabalho foi Kemile Sant'ana Oliveira. "Nasci em Santaluz, interior da Bahia, e só em 2012, quando me mudei para Florianópolis, passei a conviver com o mar. Não sabia que nele havia tanta vida e, com o documentário, encontrei um motivo para cuidar mais dessa diversidade". Ao conhecer mais sobre os conflitos da Ponta, ela se questiona sobre porque construir mais um hotel: "Florianópolis já tem muitos condomínios, comércios e hotéis. Deixaremos para a geração futura muitos prédios, mas a geração futura terá contato com a natureza?". Para a aluna, ao invés de construir um hotel, a Ponta do Coral deveria se transformar em um parque, para que as pessoas pudessem conviver mais próximas à natureza – um dos aspectos levantados pelo documentário: uma criança que não cresce em contato com a natureza tende a não se preocupar em preservá-la.

 

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A região da Ponta do Coral com prédios ao fundo (Foto: Zé Caetano)

 

Habitante do bairro Agronômica, onde fica a escola E.E.B. Padre Anchieta, o aluno Ezequiel Pereira da Silva diz que aprendeu muito ao longo de todo o processo de produção do documentário. "Sempre morei próximo à Ponta do Coral, inclusive algumas vezes pesquei com parentes na região, mas não sabia da sua importância, que depois do documentário passei a conhecer", relata. "Estivemos em alguns lugares apresentando o trabalho. Enquanto algumas pessoas não sabiam onde ficava a Ponta do Coral, outras sequer sabiam que ela existia. O que mais me impressionou foi ver pessoas maravilhadas e curiosas em relação ao Projeto", diz Ezequiel.

 

Uma outra abordagem do documentário diz respeito à poluição da Ponta do Coral – um dos entrevistados pelo curta, o Sr. Nivaldo, morador e pescador da região, diz que até material hospitalar e geladeira já foi encontrado por lá. E, embora alguns poluam mais que outros, a poluição é um problema de todos e, por isso, deve ser pensada no coletivo. "É aquela ação que desde pequena escutava em casa: 'jogue o seu lixo no lixo’. Uma pequena atitude, mas com um impacto muito grande", diz Kemile. Ezequiel, que sempre gostou da vida marinha, e que agora passou a gostar ainda mais, ressalta: "Sem a natureza somos pobres".

 

Para Zé Caetano, o projeto se tornou muito maior do que o imaginado. "Os alunos puderam ter uma experiência profissional e uma vivência que jamais esquecerão, pois entraram em contato direto com o tema, fora da sala de aula, de forma prática, e reconheceram a importância dos espaços públicos e da qualidade dos nossos ecossistemas”, expressa.

 

Quanto maior a população, maior será a demanda social por recursos naturais. A equação deve ser balanceada para que áreas sejam preservadas. Afinal, todos os recursos que a sociedade necessita são retirados da natureza, mas se não há natureza, não há recursos. "Proteger os ecossistemas para nós e para as futuras gerações é algo que infelizmente, na maioria das vezes, não aprendemos de verdade na escola, nem em casa. A ação começa em casa e, então, depois de agirmos no individual, é que agiremos no coletivo", finaliza Zé Caetano.

 

Para assistir ao documentário na integra, clique aqui.

 

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